segunda-feira, 28 de julho de 2014

ARIANO


Onaldo Queiroga

O cavaleiro descendente do pragal das Altas Beiras, da Nau Catarineta e da Barca Bela, logo após seu nascimento, conheceu o exílio e a viagem. 

No Reino da Acauhan, deu seus primeiros passos. Nas margens de um riacho, num crepúsculo cheio de presságios, assistiu ao único pôr do sol em companhia de seu pai. Nos imensos lajedos intercalados por areias repletas de fósseis de um antigo fundo de mar que banhou aquele pedaço esquecido de sertão, uma piranha morta reluzia a luz do inferno em meio ao enigmático ocaso. Na sua visão, um prenúncio confirmado com um tiro traiçoeiro que matou seu pai. Na poesia intitulada “O Reino”, descreveu o sol negro da morte em sua vida: 

“Aqui morava um Rei,
quando eu menino.
Vestia ouro e castanho gibão,
Pedra da sorte sobre o meu destino.

Para mim, seu cantar era divino
quando, ao som da viola e do bordão
cantava, com voz rouca, o desatino,
o sangue, o riso e as mortes do sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
eu me vi como um cego, sem guia,
que se foi para o sol, transfigurado.

Sua Efigie me queima. E sou a presa,
ele a brasa que impele ao fogo, acesa
espada de ouro em pasto ensanguentado”.

E a vida lhe entregou a estrada. E os ventos levaram-no para Recife. Sob o relógio do céu, que tem o sol-ponteiro com guia, foi ele caminhando pelo tempo até que se fez advogado. Mas, como dizia, era causídico de nenhuma causa. O mesmo tempo lhe entregou o destino da cultura. Dramaturgo, escritor e poeta, foi assim que se mostrou ao mundo, notabilizando-se como o maior defensor de sua terra e de seu povo. Não trocava o seu oxente por ok de seu ninguém. Escreveu sobre seu reino e contou causos extraídos de suas andanças por seu mundo, Taperoá. Atravessou eras e pisou os caminhos dos cabelos brancos. Indagado se não estava na hora de parar, respondeu: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver." O autor de “O Auto da Compadecida”, sempre afirmava: “Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”.

Vinte e três de julho, um dia como outro qualquer. Será? Acho que não. As datas amanhecem trazendo consigo a vida ou a morte. Naquele dia, o sol da morte veio como bem dizia sua poesia, "com a luz do sangue". Entre o amor e a morte, a vida e o obscuro, o mundo e o terrível, ele costumava dizer: “A morte é uma mulher, uma divindade e ao mesmo tempo terrificante, mas acolhedora e que tem nome, se chama Caetana”. Fica a lembrança das aulas espetáculo segurando o público por horas. Histórias engraçadas, mas que tocavam na ferida. Adeus, Ariano. Até outro dia!

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